Afogado em Sangue

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Cap. III:

Em um amplo quarto, com banheiro e acesso sem porta a uma biblioteca particular, em formato estrelário e onde as paredes estavam cobertas, de fora a fora, por altas estantes repletas de brochuras dos mais diversos temas de ciência, filosofia e literatura, Gaio conversava com Polaris. – Da última vez em que estive em seu quarto, não me recordo de ter visto este cartaz – disse Polaris enquanto tirava, nos intervalos da conversa despretensiosa com o amigo, uma ou outra nota metálica de uma guitarra personalizada que empunhava. Achava-se sentado em um pufe, de onde tinha acabado de ler três frases interrogativas existenciais: “Quem somos?”; “De onde viemos?”; “Para onde vamos?”; escritas em branco num fundo escuro cheio de pontos luminosos movendo-se continuamente para os cantos de uma tela digital retangular fixa na parede ao seu lado.

– Você o colocou há pouco, não foi?

– Foi, sim – disse Gaio, deitado ressupino em sua cama arrumada, de calçado e tudo, olhando distraidamente uma fantástica reconstrução holográfica e dinâmica do Sistema Solar que pendia do teto. As sombras progressivas do entardecer percebido por uma porta-janela escancarada e avarandada se adensavam com mais força dentro de seu quarto, com as luzes apagadas de propósito. – Só não me peça as respostas, pois eu não as tenho. – Ele riu.

– Por enquanto, não é? Se continuar devorando um livro após outro, em breve estará habilitado a respondê-las... – Não, nunca estarei – garantiu Gaio. – Até porque o encanto maior delas está no mistério indesvendável que representam desde os primórdios da ruminação humana, na era axial. São elas que instigaram e continuam a instigar a nossa sôfrega curiosidade, esta o motor que nos move pela busca incessante por conhecimento, por respostas. Você não acha? Quando o sapiens...

– Não era darwins? – interrompeu Polaris.

– É, é. Darwins, wallacis. Mas, infelizmente, por força contrária de uma arquitetura cerebral nata, para muita gente ainda não – disse Gaio meio desalentado. – Então, como ia lhe dizendo, quando o Cro-Magnon... na verdade, darwins... conseguir unificar as quatro forças, se vier a fazê-lo, é claro, pessoalmente, acho que será o momento ideal de sermos extintos, já que não haverá mais horizontes a ser desbravados. Pois, como lhe disse, é a curiosidade insaciável que nos define enquanto espécie. O feito de Charles Darwin é a maior prova do que digo.

O quarto de Gaio tinha, ainda, nas paredes, quadros animados digitalmente com as imagens da Via-Láctea e Andrômeda, de nebulosas, supernovas, buracos-negros etc. Impressionante também era a imagem, em tempo real, da Terra vista do espaço por meio de um satélite que circulava o planeta uma volta completa a cada 60 minutos. E numa certa parede havia em destaque um grande e requintado quadro pintado a um óleo com propriedades reflexivas. Entre cores brancas e escuras, a pintura se constituía de uma mão sustentada por um braço todo coberto por um pelo denso e escuro. Essa mão apontava do canto superior direito o dedo indicador para o muito próximo mesmo dedo de uma outra mão, só que agora sustentada por um braço nu, vinda do canto inferior esquerdo. A imagem com tinta especial era uma profusão de perspectivas, pois, englobando toda essa representação, em primeiro plano, nela ainda aparecia uma lente de tamanho desproporcional e levemente inclinada de um par de óculos de um senhor calvo e com longa barba alva caindo-lhe do queixo, além de cobrir-lhe quase toda as faces pelas laterais até as orelhas. De perfil voltado ligeiramente para dentro, esse senhor de fisionomia austera ainda trazia um besouro em uma das mãos, a única retratada. Quando se observava de frente a pintura desse complexo quadro, os dedos que indigitavam atrás da lente ocular um para o outro se tocavam e, ao fundo, se revelava a constelação de libra conectada por séries de elos coligados.

Ainda no quarto de Gaio uma mesa (que era uma verdadeira estação de leitura e escrita) estava apinhada com papéis eletrônicos wi-fi cheios de anotações, brochuras em papel abertas, livros empilhados, post-its e um laptop double-screen (com duas telas leds, uma horizontal para digitação ao toque e outra vertical para visualização) personalizado e fazendo downloads todo o tempo. Um console-projetor de videogame, especialmente num outro canto do quarto, apontava para uma parede de dois metros quadrados onde fazia desfilar, em silêncio, sucessivas imagens poligonais foto-realistas dos ambientes de Zelda 64.000.

– Eu o pendurei aí porque estou germinando algumas ideias existenciais que, mais tarde, quem sabe, pretendo enfeixá-las num livro que estou bolando.

– Quando terminá-lo, se lembre de me emprestá-lo – Polaris tirou mais algumas notas metálicas que ecoaram longamente pelo grande quarto. – E aquele seu estranho manual de artes marciais com ênfase em unhas e dentes que estava escrevendo? Finalmente o abandonou, não é?

– Não, de modo algum. Ainda continuo trabalhando nele. É verdade que eu o releguei por esses dias. Estava detido em um detalhe difícil e fundamental: tenho tentado chegar ao tamanho ideal de unha. Ela não deve ser muito pequena, de forma que não perca as características de uma lâmina afiada, nem grande demais, para que não possa se quebrar com facilidade quando estiver bem enterrada na carne viva.

“Outra coisa que me toma tempo são os tipos de investidas. Estou trabalhando em várias técnicas de ataques e contra-ataques. Se a contenda for mortal, em desagravo à honra, todos devem ser dirigidos de modo fulminante expressamente em cima do pescoço, preferencialmente sobre as carótidas. Se for com a boca, são cinquenta quilos de força maxilar humana, Pô. E toda essa força empregada no material mais duro e pontiagudo de nossa constituição física, que é o esmalte que reveste nossos dentes. E no caso das unhas, embora não conte com a força animal dos músculos maxilares, se a deixarmos devidamente sujas, imundas, imagine a infecção que poderíamos causar com um bom arranhão, para não falar de um verdadeiro talho? Com minha técnica, quanto maior a quantidade de músculos do adversário, simplesmente maior poderá ser o naco de carne dele arrancado com os dentes! A despeito de meio abismado diante de Gaio, Polaris sabia que o amigo dizia tudo aquilo com uma naturalidade irônica.

– Teorizando dessa maneira, você vai acabar virando bicho, cara! – disse Polaris também com ironia.

– Pensando bem, talvez você tenha razão, Pô. É melhor eu parar com isso; pois veja, ando até me esquecendo de cortar as unhas ultimamente – disse Gaio com riso, enquanto mostrava as unhas das mãos ao amigo.

– Sim. Vai agir como um legítimo animal. Vai até acabar andando pelado por aí – disse Polaris também com um riso.

– E de quatro! – completou Gaio zombando e se divertindo com o absurdo das próprias ideias. – Venha aqui, vou lhe mostrar uma coisa que bolei – Gaio se levantou e levou o amigo até um armário, que abriu, revelando um aparelho parecido com uma roleta em que, em uma roda segmentada em casas, o eixo fazia o papel do Sol e as bolinhas lançadas, um total de dez, o de planetas em um sistema planetário. – Vamos supor que, com base na numeração das casas, na quantidade de bolinhas lançadas e com as mesmas condições iniciais, você tem a chance de uma em mil de acertar a sequência. Então, se quiser dispor de cem por cento de chances de acertar, terá de jogar por mil vezes. Muito difícil? Não se puder girar a roleta “solar” quantas vezes quiser. Não se dispuser de um tempo realmente grande para ficar jogando, um tempo cósmico. Sim, Pô. Estou falando de um contexto cósmico. É exatamente isso o que quero ilustrar: num contexto cósmico, podemos contar ainda com uma simultaneidade enorme, talvez até infinita! As roletas não apenas giram incontáveis vezes, mas juntas em quantidades inumeráveis, como num salão de jogos interminável. Pois é isso o que torna o Universo verdadeiramente imenso: não importa em seu Contexto quão pequena seja a probabilidade de algo acontecer, ela ainda sim poderá se repetir infindáveis vezes!

– Que doido, Gaio! – disse Polaris impressionado. – Como bolou isso?

– Ah!, com ideias meio malucas. Só isso – Polaris discordava. – Acho que vou levar essa coisa para a feira de ciências. Só não sei se alguém vai parar à minha frente enquanto eu tento explicá-la. Mas mudando de assunto: você viu, Pô? Nossa hipótese do alienígena pegou o mestre Ji de surpresa – Gaio levou o amigo de volta ao pufe.

– Foi mesmo. Não só ele, mas também minha mãe, meu pai e sua mãe ficaram de queixo caído.

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