Gaia

Cap. IX:

O metrô intercontinental e submarino seguia hipersonicamente pelo leito do Atlântico Sul. Rumava para a costa leste do continente sul-americano, na altura do Trópico de Capricórnio. Dentro de determinado segmento do longo veículo deslizante, todos os passageiros dormiam inocentes em suas poltronas reclináveis, com exceção de Gaio: embora o ponteiro do relógio analógico-digital mais próximo tivesse acabado de bater quatro horas da madrugada, o jovem acordara de repente e, assaltando-o a recordação de onde se achava e por que motivo, assim ficou, meio cético, com os olhos fixos na paisagem submarina monotonamente escura que desfilava através da janela horizontal e contínua do túnel e das intercaladas do metrô.

Isolado de ruídos mecânicos originados do deslocamento – embora não houvesse mesmo nenhum rolamento que pudesse entrar em atrito com algum outro, já que o contato do chassi com os trilhos se dava entre forças magnéticas invisíveis –, dentro daquele segmento do veículo dividido em aposentos para até cinco pessoas reinava o silêncio total. Nos outros aposentos ocupados havia sons de respirações regulares, além de alguns roncos, que não passavam de forma alguma para os aposentos vizinhos. Gaio era um dos poucos que viajavam sozinhos em seus aposentos confortáveis. Não sentia frio ou calor, porque o veículo era aclimatado, mas mesmo assim mantinha uma coberta sobre o corpo reclinado.

“O que devo encontrar? A 25 graus de latitude o clima é predominantemente regulado pelas massas de ar frio da Antártida. Nessa região, devo encontrar pouca influência da Grande Savana Amazônica. Ou talvez não. Afinal, o lugar aonde desembarcarei está situado nos trópicos, a faixa que, estéril do globo, reúne a maioria de seus grandes desertos. E pensar que esse continente já foi o mais verdejante e fecundo do mundo. Como os descendentes dos espoliadores que lá invadiram foram capazes de tamanho feito?! Tecnologia!, que foi aliada a uma desmedida ambição estólida. Tecnologia... uma espada de dois gumes. Antes dela, a Mãe Natureza era respeitada, idolatrada, temida. No alvorecer das primeiras civilizações, o culto à Gaia fora institucionalizado, embora, era verdade, também religiosamente carniceiro em muitas épocas e sociedades, com seus cruentos, covardes, estúpidos e hipócritas sacrifícios de animais. Depois dela, a tecnologia, a espécie humana, exorcizando toda a arrogância e toda a ambição guardada na distância que separa seu nariz do chão, julgou-se capaz de dominar, subjugar, a Grande Mãe geradora e mantenedora de tudo o que é vivo. Um julgamento cuja consequência, revelada paulatina e patentemente e ignorada sistemática, obstinada e desarrazoadamente, se consumou, após a Hecatombe do Desequilíbrio, nada mais equivocado, um equívoco amargamente irremediável.” “– Hoje é o primeiro e mais importante dia de nosso novo calendário lunar” – lembrava, em pensamentos através dos quais Gaio se recordava de uma passagem marcante de infância, a um grupo de crianças em vestimentas indígenas um aborígine de riso bondoso, mas de ar professoral, num esplendoroso jardim silvestre refulgindo aos raios solares. “– Hoje, como todos nós muito bem sabemos, comemoramos o dia de Gaia, esta que é o ventre de onde todos nós, sem exceção, saímos, com o qual umbilicalmente vivemos e para o qual, no fim cíclico, inexoravelmente voltamos.”

“– Hoje, Gaia não está mais zangada conosco, professor?” – lembrava-se Gaio de haver perguntado naquele dia. Lembrou-se também de que, nesse dia, calçava apenas uma tanga e de que estava com os pés deliciosamente descalços.

“– Não, não está, Gaio” – tinha respondido o professor com um riso ainda mais espontâneo ao saber que sua imatura plateia, sentada diretamente no solo gramado, não estava nele compenetrada apenas por temor à sua trigueira compleição física seminua, mas por interesse no místico tema de que tratava.

“– Mas não fora sempre assim” – o professor tinha decidido abandonar o riso largo e alvo entre beiços carnudos para assumir um conveniente ar severo. As crianças, em sua maioria, haviam, naquele instante, de fato reagido com temor, mas pelo motivo de que, como antes, simplesmente se encontravam compenetradas no tema da aula, fazendo oscilar suas emoções ao sabor das marcáveis descobertas. “– Não faz muito tempo, o bicho-homem fez uma bagunça muitíssimo feia, além dos limites, em nossa frágil morada do infinito; a Mãe Gaia perdeu toda a sua mundial paciência e resolveu nos castigar com toda a sua planetária fúria. O que nós fizemos foi tão feio que Ela só se deu por satisfeita quando nos expulsou a todos daqui. Como vocês todos sabem, nós só conseguimos continuar existindo porque a irmã caçula da Terra, a Lua, nos acolheu por um período até que a Mãe Gaia se acalmasse um pouco. Não pudemos ficar muito, visto que a Lua sempre fora extremamente hostil conosco. Quando não fomos mais capazes de aturar suas hostilidades, tivemos de voltar correndo, com a cara mais desavergonhada possível, para o nosso ventre, aqui na Terra. Mas, como lhes disse, a Mãe Gaia ainda não tinha se acalmado totalmente, pois ainda vomitava sua ira por meio de vulcões espalhados por quase toda parte do planeta, fazia tremer o chão com seu brado em desabafo, inundar com as tempestades de seu choro inconsolável, gelar com sua frieza glacial e desertificar com sua árida indiferença. Por isso, quando voltamos cheios de temor e vergonha, fomos obrigados a nos esconder neste canto remoto e aqui ficar até os dias de hoje.”

“– Se somos tão inteligentes, porque agredimos tanto o nosso próprio lar, professor?” – com um fofo ar indignado de adulto, havia perguntado uma coleguinha de Gaio, ele não se esquecera.

“– Talvez não sejamos tão inteligentes assim” – se recordava Gaio de haver respondido, hoje surpreso com a própria mostra de ironia na sua incipiência daquele tempo.

“– Boa hipótese, Gaio” – o professor aborígine, também se lembrou, tinha lhe dado um daqueles sorrisos de satisfação que sempre acabaria ganhando de mesmos profissionais em toda a sua vida escolar.

“– Há quem diga que hoje podemos auscultar o humor de Gaia.”

“– Como?” – quis saber, Gaio também não se esqueceu, um coleguinha seu que também tinha assumido uma expressão tipicamente adulta, só que agora de ceticismo.

“– Simples” – dissera o professor com o riso bondoso que o próprio Gaio tornara a lhe devolver. “– Basta que a gente toque na relva, no chão, com as mãos e, através delas, permita, concentrados, que a sintamos, Gaia, pulsar. Quem quiser tentar, está autorizado, mas aviso desde já que se fizermos isso não certos de nossa gratidão de coração, corremos o risco de a Mãe-Terra nos dar uma baita bronca.” Com exceção do pequenino cético, Gaio se lembrou e achou graça, perante o alerta do professor, de que toda a sua turminha tinha ficado ressabiada, inclusive ele. Mas, naquele dia, Gaio, como a maioria, resolvera passar pela experiência: com uma cautela que também provocava divertimento no professor, deitava uma das mãos sobre o solo gramado, quando o metrô do presente o avisou da chegada, interrompendo-lhe as cada vez mais longínquas recordações de infância. – Consciência ecológica como resignação inapelável e humilhante perante a incontornável frustração do predador planetário que almejava ser um predador de planetas?

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