O Limite de Chandrasekhar
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Cap. IX:
Era começo de uma manhã ensolarada e ventosa. Pela paisagem em sua maior parte rasteira e quase inteiramente coberta de verde, tudo aparentava relativamente tranquilo. No meio, a solitária construção de andares desencontrados do Templo do Lótus erguia-se intacta. Pela trilha calçada com pedra, Ábaco chegava de uma lenta e muito, mas muito cansativa viagem. E sua bagagem, ao que parecia, tinha ficado pelo caminho, porque já não trazia mais sua grande mochila militar às costas. Mas o que chamava mais atenção nele era uma venda escura que agora trazia em torno da cabeça, cobrindo a faixa dos olhos. Contudo isso, ainda podia enxergar através do fino pano, embora muito pouco, com muita escuridão.
Ábaco, visivelmente esgotado, se aproximava de uma das quatro passarelas sobre a lagoa ornamental que circundava o templo. Notou movimento de pessoas em um dos andares. No primeiro, apareceu uma mulher acompanhada de uma criança. Elas dispararam em sua direção. Mas, no meio do caminho, estacaram subitamente.
Ábaco continuou se aproximando, até que ficou de frente para a mulher e a criança. Estas, antes cheias de expectativa e brilho nos olhos, agora tinham assumido uma postura defensiva, pareciam cheias de desconfiança, inclusive medo, principalmente a adulta, uma jovem de olhos azuis e volumosos cabelos loiros levemente ondeados, que levou instintivamente uma de suas mãos à frente da pequena companheira, trazendo-a um pouco para trás, como se a quisesse proteger.
– Por favor, gostaria de saber se aqui posso encontrar o mestre Chang Ji? – disse Ábaco com um tom de desânimo, e também súplica.
– Ele não está mais aqui – respondeu Marina um pouco fria. – Partiu em busca de ajuda e disse que talvez nunca mais voltasse.
Ábaco suspirou. Estava desapontado, muito desapontado. Tanto que começou a sentir raiva. Enquanto Marina o observava calada, ele desviou o olhar encoberto, passando a fitar através da venda a torre ao lado dela. Foi quando reparou mais ou menos várias crianças surgindo com olhares curiosos logo por cima do parapeito de uma câmara do segundo andar. Então ele voltou sua fronte para a menina que acompanhava sua interlocutora. A pequena se assustou com a atenção, por trás daquela venda, de que foi alvo.
– Quem são todas essas crianças? – quis saber Ábaco com súbito interesse.
– Órfãs – respondeu Marina ainda não muito amistosa.
– Foi o mestre Chang que as trouxe? – Ábaco, mesmo sob a venda, parecia de repente incontrolavelmente curioso.
– Sim – Marina, por seu turno, estava ficando mais desconfiada e cautelosa. – Por que quer saber?
– Preciso vê-las... – Ábaco avançava pressuroso e Marina o impediu ao tomar bravamente a sua frente.
– Espere! Não vou deixá-lo que se aproxime delas!
– Ábaco estacou, surpreso com a firmeza da delicada moça, com sua expressão inflexível. Amedrontada ficou só a menina, que recuou.
– Por favor, preciso muito que me deixe ver se meus irmãos estão aqui – Ábaco disse em tom de súplica, respeitando completamente a autoridade da jovem.
Marina considerou ante o pedido.
– Quem é você? – quis saber a jovem estonteantemente loira, com o cabelo agora um pouco mais curto e sem nenhum sinal da tinta escura que uma vez usara não faz muito tempo.
– Meu nome é Ábaco – disse o jovem sem entusiasmo, como se envergonhado da própria identidade. – Estava a serviço do mestre Chang em uma missão. Fiquei ausente num dos momentos mais decisivos para meus irmãos. Deixei-os convalescendo de suas graves queimaduras pulmonares no Grande Hospital quando parti... e não retornei a tempo de protegê-los quando foram atacados por aqueles marginais inomináveis que tomaram todo o prédio. – Ouvindo em silêncio, Marina condoeu-se com o relato. – Depois que voltei e não encontrei meus irmãos, comecei a vagar sem rumo tentando descobrir o que acontecera a todas aquelas pessoas que estavam internadas naquele estabelecimento tão fundamental à nossa recuperação enquanto sociedade. Localizei alguns sobreviventes também completamente desnorteados, totalmente perdidos, que me contaram sobre os terríveis ataques contra a instituição e todos que lá estavam. Me disseram que foi talvez a maior covardia já perpetrada por homens contra homens, mulheres contra mulheres. Disseram-me que inverteram completamente o propósito primordial de humanização pela cura do lugar médico, ao transformá-lo num matadouro de fogo e água fervente que dilacerou a tudo que fosse humano, tanto do lado de quem era atacado, pela parte física, quanto do de quem atacava, no aspecto psicológico, agindo como bestas infinitamente descontroladas. E mais do que as dolorosas mortes e a total destruição causadas, é o tamanho dessa barbárie pela maneira como os atos foram praticados que está provocando o verdadeiro abalo no que restava das convicções das pessoas que ainda resistem em Aerópolis. Assim como seus edifícios, a ideia de humanidade na cidade, em todo lugar, está sendo reduzida a farrapos. Estamos rapidamente nos encaminhando para uma situação que logo ficará simplesmente irreversível.
Marina, com seus cabelos incessantemente lançados pelo vento, olhava fixa para o interlocutor, petrificada com o que ouvia, mesmo já conhecendo quase toda aquela horrorosa história.
– Também soube, nesses contatos que tive com algumas pessoas, que o mestre Chang fora visto retornando para cá depois do ocorrido, trazendo vários sobreviventes em sua companhia. Por isso decidi vir procurá-lo.
– Sim – disse Marina. – O mestre retornou para cá, trouxe adultos e crianças, mas, como eu disse, também já partiu novamente, em uma comitiva, deixando só as últimas, quase todas órfãs. E eu fiquei encarregada de protegê-las. – Embora tivesse acabado de conhecer a trágica história de Ábaco e até nele acreditado, sentindo compaixão, Marina ainda conservava o tom duro e direto. – Vou deixá-lo vê-las apenas porque o mestre já me falara sobre você, que talvez acabasse aparecendo por aqui cedo ou tarde em busca de respostas. Infelizmente, eu não as tenho. Acho que não conseguirei ajudá-lo. Mas pode passar, o caminho está livre. Veja o que pode encontrar. A maioria dos meninos e meninas está no templo ocupada com aprendizados escolares.
Ábaco, então, avançou, com a dificuldade de quem pouco enxergava, mas ainda assim com pressa, e passou por Marina e a muda e ainda assustada criança que a acompanhava logo atrás.
– Por favor, me diga só uma coisa: – interpelou de repente Marina às costas de Ábaco enquanto ele concluía a travessia da passarela sobre a lagoa e a qual dava acesso ao Tempo do Lótus. – Você não encontrou quem procurava em sua missão dada pelo mestre?
Ábaco, que parara à interpelação e voltara-se para trás, fez uma pausa, dirigindo a fronte no rumo dos olhos de Marina. – Não. A torre estava vazia, completamente vazia – disse, e voltou-se na direção do templo, retomando sua caminhada para adentrá-lo.
Marina, abaixando a cabeça e depois encarando melancolicamente a pequena companheira, parecia bastante desalentada.