Embate Incandescente
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Alguns Anos Depois...
Cap. VII:
O decurso de alguns anos após a concepção da Técnica Elementar ainda não havia operado a significativa transformação prometida à cosmopolita Aerópolis. Agora, todavia, a revolução estava prestes a começar. Chang Ji enfim conseguira que sua equipe inicial de aprendizes concluísse o árduo e moroso processo de desenvolvimento e domínio da Técnica Elementar em toda a sua complexidade permitida. Apesar de não ter mesmo, até o momento presente, logrado manifestar a menor das perturbações ambientais, ele se encontrava animado com os planos de expandir logo o entendimento da fantástica técnica por toda a cidade. Para tanto, haveria primeiro de repassar seu método de sucesso a uma legião de pessoas que se encarregariam, posteriormente, de se tornar os futuros professores dos novos interessados – ou de todos os habitantes da cidade tornados profundamente interessados conforme Chang Ji desejava. E haveria ainda de convencer as autoridades, ou mesmo a população aeropolitana de um modo geral, a construir mais escolas elementares para dar conta da objetivada demanda total, satisfazendo, então, o desejo fundamental acalentado por Tupã de propagar o conhecimento da técnica ao nível de massa, não deixando virtualmente ninguém de fora.
À noite, Aerópolis impressionava pelo seu gigantismo absurdo tanto quanto durante o dia. Pela forma como se emaranhavam umas às outras, as avenidas suspensas a perder de vista, com sua iluminação coada nos vapores densos e orvalhosos, podiam ser tomadas poeticamente, de um ponto de observação mais afastado, por caudas longas e cintilantes de cometas. Os edifícios verticais que penetravam grande parte da troposfera podiam ter as luzes vazadas, através de suas numerosas janelas, confundidas com o brilho de enxames de estrelas.
As vias suspensas não eram sustidas por colunas embasadas no chão, mas por pilastras ou suportes que se projetavam em diagonal dos topos de alguns ainda mais robustos perfura-céus, assegurando, dessa forma, que enormes elementos desarmônicos vindos do chão não comprometessem a estética da cidade. No cimo de alguns desses colossais prédios havia inclusive estruturas que aguentavam entroncamentos nervosos das vias asfálticas aéreas.
Nesta noite, na região da Grande Zona Central, acontecia uma detalhada exposição no vasto Museu de História Natural, um complexo de 1 milhão de metros quadrados e 23 prédios. O museu abrigava quase meio bilhão de artefatos que contavam a história da vida na Terra em todas as suas instâncias; mas hoje o tema principal era a evolução dos primatas antropoides do gênero Homo.
Chang Ji convidara Árktos e a esposa deste, Kaze, para acompanhá-lo na visita ao referido museu.
– É uma pena que sejamos a única espécie sobrevivente do gênero Homo. Se tivessem sobrevivido outras, talvez não houvéssemos sido sempre tão antropocêntricos e arrogantes, não acham? – disse provocativo Chang a Árktos e a Kaze, os três perante um grande diorama que representava cenicamente a comparação morfológica de todas as espécies de hominídeos conhecidas da paleoantropologia atual, cada uma delas em tamanho natural e em seus respectivos e prováveis habitats naturais.
Eles se detinham no grande saguão de entrada, de pé-direito de mais de 30 metros de altura, com portais em arcos que, ornamentados frontalmente com duas grossas colunas jônicas cada, davam acesso aos corredores que levavam a inúmeras salas contíguas.
– Você deve está certo, Chang – disse Kaze. – Mas estou curiosa mesmo é para ver Ardi. O que ela revelou aos paleoantropólogos é uma das coisas mais impressionantes de que já fiquei sabendo na minha vida. Somos nós de certa forma que demos origem aos símios, Árktos!
– É, eu sei – disse Árktos. Chang sorriu. – A ciência pode nos contar histórias bastante surpreendentes.
Do lado de fora do museu, subindo apressados a imponente escadaria que dava para o grande portal de entrada, estavam Anarco, Atlas e Nairobi, esta última portando um bastão de cadeados metálicos que intencionalmente disfarçava com pouco zelo debaixo de um casaco leve e aberto.
– Se quer mesmo acabar com eles, por que não me deixa demolir os edifícios todos em cima deles?
– Larga de ser covarde, Atlas! Ou será que você está com medo? Pois não fique com medo, temos boas vantagens sobre eles: iremos jogar sujo, botar os civis em perigo e, consequentemente, deixar nossos adversários hesitantes, sem reação. Ademais, o melhor de tudo é que não aguento mais esperar para demonstrar meus poderes em público – disse Anarco pressuroso ao passo que venciam os últimos degraus.
– Vamos, sim, é ficar demasiado expostos... Seremos filmados sob todos os ângulos, em alta resolução!... – resmungou Atlas trocando um olhar temeroso com Nairobi, como que pedindo a opinião dela.
– Precisamos deveras de uma certa exposição a fim de incutir temor e respeito por nós na população – disse Anarco. – Pena que não será ao vivo. Ademais, não devemos mais temer a ninguém. Eles é que devem nos temer. Perante as autoridades, alegaremos legítima defesa e ação preventiva contra nossos inimigos, pois os transformaremos nos verdadeiros vilões.
Os três se encontravam diante do grande portal de entrada.
– Vamos expor nossas habilidades, então!
Dentro do museu havia um número razoável de visitantes, de todas as idades, como famílias inteiras acompanhadas de crianças curiosas e encantadas.
– Você também acha que o H. sapiens exterminou o homem de Neanderthal, Chang? – perguntou Kaze. Os três continuavam a observar o diorama anterior.
– Claro que exterminamos, pudim do oriente – quem respondeu com insolência fora Anarco quando se aproximara e estacara, junto de Atlas e Nairobi, a uns cinco metros de Kaze, Árktos e Chang. – Só pode haver uma espécie ou grupo dominante, meu amor!
Chang, Árktos e Kaze se viraram surpresos na direção do autor do comentário intrometido e desrespeitoso. Chang e o casal que o acompanhava atentaram para a arma branca que a acompanhante de Anarco trazia à mão, deixada entrevista por dentro do casaco aberto com o propósito de intimidá-los. Subtendendo o recado dos abordadores, os três acordaram de maneira súbita para a quantidade de pessoas inocentes a circular em derredor, e trocaram entre eles olhares preocupados.
– Não sei o que quer, mas se tem um problema a propor-nos, sugiro que o resolvamos lá fora, em outro lugar – disse Chang Ji com rispidez.
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