O Sumo Carrasco
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Cap. III:
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– Fracasso, Dúbio! É isso que você é! Poderia ter salvado toda a espécie humana através de um ato tão facilitado pelas providenciais circunstâncias e, mesmo assim, não conseguiu! Ah, Dúbio, e ainda tem a coragem de me relatar, em detalhes, o fato que provou toda a imensa incompetência de que é capaz! Está vendo, meu amor: um legítimo incompetente confesso à nossa frente! – gravemente e queixoso, dizia um homem atlético, que trajava uma longa e larga túnica escura, a uma jovem, bela, e de movimentos voluptuosos, mulher de corpo escultural envolvido numa roupa justa, preta, com aspecto de napa e peluciosa por dentro, enquanto a mantinha com um braço enlaçada pela cintura. – Deu foi é muita sorte por estar, sem vergonha, aqui inteiro me contando a grande vacilada que cometeu. Pois, ao tempo que vacilava, deveria suspeitar de que o nosso tão perigoso inimigo poderia ter lido seus pensamentos... algo em tese nada difícil diante de tantas e absurdas aptidões dele já reconhecidas por nós... e, então, descoberto as suas intenções nada hospitaleiras para com ele.
– Ô Assur! Maneire com o garoto, está o assustando! – disse a mulher lasciva e afagou-se em seu companheiro.
Dúbio, o jovem que quase apunhalara Gaio com um espeto de gelo, recebia a reprimenda e a humilhação calado, embora não mantivesse o queixo, ou linha do rosto, decaídos. Os três se reuniam em cima de uma grande superfície lisa de pedra, num lugar bem afastado e oculto do Mosteiro dos Esquecidos, porque cercado por uma parede natural de pedra. Logo atrás deles repousava uma grande aeronave cinzenta com a forma parecida com a de uma arraia. Era fim de uma tarde bastante fria, sob um céu borrado por nuvens avermelhadas.
– Não, minha guloseima! O assunto de que tratamos é muito sério, seriíssimo! Estou exagerando, Dúbio? Porque parece que para você eu estou! Parece-me que anda duvidando de tudo o que lhe disse a respeito desse nosso Inimigo! Que acha que o enviei para cá à toa!
– Mas, professor Assur, ele de fato não me demonstra ser tão pernicioso assim – disse finalmente Dúbio, sem parecer receoso. – Tem razão mesmo de que quer nos destruir a todos?
Assur desejava perder as estribeiras com o que ouviu, porém se conteve ao custo de algum esforço.
– A imagem de Aerópolis destroçada que tanto o chocara e o motivara a vim para cá punir o responsável se apagou tão cedo assim de sua memória? – Assur tinha uma genuína entoação trágica. – Porque, se ainda não acredita em mim, pergunte nesse caso aos extraterrestres! Eles irão voltar, com toda a certeza, e, dessa vez, terminarão o que começaram. Coisa que poderia ter evitado por tão pouco, e não evitou.
Dúbio se sentiu culpado, desenvolvendo na carranca até aquele momento aparentemente impassível uma expressão de profundo desânimo e desespero.
– Professor, me perdoe, por favor! Prometo que não irei falhar outra vez! Dê-me mais uma chance, por favor!
Assur esfregou com a mão o rosto cheio de tensão.
– Infelizmente, não tenho outra saída, vou ser obrigado a continuar contando com você lá dentro – disse Assur. – Mas não volte a tentar eliminar pessoalmente o nosso inimigo.
– Professor, me deixe tentar sim mais uma última vez, tenho certeza de que agora não irei hesitar!
– Não, não, Dúbio, se já falhou antes, dessa vez que não conseguirá mesmo. Neste momento, nosso Inimigo deve estar desconfiando de você, em alerta com você. Se tentar atacá-lo de novo, obterá um revide muito maior e antes que, além de acabar com qualquer chance sua de ter valido alguma coisa ao bem da humanidade, poderá piorar bastante a situação de gravíssimo risco em que já nos encontramos. Mudaremos de tática. Você procurará é ganhar a confiança do nosso inimigo. E vai me ajudar a atraí-lo para uma emboscada que venho planejando. Vamos encurralá-lo e atacá-lo maciçamente. Para isso, pretendo mobilizar um verdadeiro exército de exímios dominadores da Técnica Elementar. Anarco está cuidando dessa parte, arrebanhando um grande número de jovens engajados que nem você, e iniciando-os nas artes marciais com as armas elementares. Com investidas devastadoras partindo de tudo quanto for lado, o tão poderoso filho de Tupã não terá tempo nem para respirar.
De início, Dúbio gostou do que ouviu, mas, de repente, algo o preocupou.
– Ele disse poder ouvir as cordas que tecem o cerne de todas as coisas, professor.
Assur, que parecia entusiasmado com planos tão ambiciosos, ao tomar conhecimento da notícia, hesitou penosamente por um instante.
– Viu, Dúbio. O inimigo se fortalece à medida que o tempo passa. Por isso temos de agir com pressa, precisão e suficiência bem além da necessária! – disse Assur. – Agora retorne para o seu meio de... “castrados”, Dúbio – Assur assumiu um ar zombeteiro. – Depois lhe darei mais detalhes de meus novos planos.
Ainda agarrado com a mulher que o acompanhava, Assur entrou em sua aeronave e decolou verticalmente sob a emissão de um silvo insuportavelmente agudo. A pouca altura, a arraia voadora partiu adquirindo velocidade progressivamente, a uma distância do chão tão temerariamente curta que parecia que raspava a acidentada e pedregosa superfície do vasto deserto do Tibete.
Mais tarde, Gaio atravessava com passos de leve um longo corredor abobadado de pedra e mal iluminado por archotes, cruzando porta com porta das silenciosas câmaras individuais de reflexão, quando foi surpreendido com a vinda da direção oposta de um jovem igualmente com pisadas cuidadosamente suaves.
– Dúbio, andando à toa a esta hora ou apenas procurando uma nova porta alheia para a orelha curiosa deitar?! – disse Gaio aborrecido, mas um pouco surpreso com tamanha mostra de sarcasmo de que foi capaz com o de fato prestimoso colega que, apesar de decisivamente envolvido no desfecho feliz do episódio com Maia, ainda lhe era estranho, para não falar de, no fundo, hostil, certamente muito hostil.
Como Gaio, Dúbio estacou imediatamente, estupefato, mas também temeroso e revoltado.
– E você, saindo para caçar alguns carrascos mesmo ciente de que é, de imensuravelmente longe, o maior deles? – rebateu Dúbio entre os dentes, o olhar intenso capaz até de um brilho através da penumbra bruxuleante daquele gélido corredor solitário.
Mas Gaio, por seu turno, também não se intimidou: os inflexivelmente hostis olhos do oponente interlocutor sustentou a base de um olhar igualmente frio, por segundos que, de tão tensos, começaram a fazer Dúbio suar. Este, ao cadenciar a respiração, parecia reunir toda as suas energias a um possível contra-ataque tremendamente fulminante. Embora desafiante, Gaio, contudo, não tinha intenções beligerantes: o que o empedernia era a captação e a medição de toda a agressão latente no inimigo para com ele. Estava perturbado com tamanho sentimento de ódio de que era capaz de provocar em alguém.
Já corria mais de um minuto aquele tenso encontro de olhares férreos e Dúbio, ainda conservando-se imóvel e extremamente concentrado, não se importava em estar se mostrando empapado no rosto mesmo sob aquele rigoroso frio do mosteiro: não o temia, contudo o adversário com quem no momento se deparava tinha potencial para agir como um deus conforme acreditavam alguns, ou muitos, principalmente o seu mentor, Assur. Seria verdade? Gostaria de mais de conhecer a prova. Por via de dúvidas tão críticas, no entanto, se tivesse de revidar, na verdade, se pudesse, investir-se-ia por inteiro, não se pouparia, não mesmo.
Mas o feroz embate entre os jovens colegas felizmente se restringiu aos seus olhos, pois Gaio, para espanto de Dúbio, acabou cedendo primeiro, desviando, então, seu antes renhido olhar para continuar a prosseguir calado. Deu as costas inermes ao oponente e este, desconfiado, mas sem também deixar de se impressionar, observou sem reação, mesmo querendo tanto agir, o grande inimigo da existência humana se distanciar lentamente, se dissolver visualmente na penumbra do lôbrego corredor.