Harmonia Elementar
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Cap. I:
De lado, com a água que desabava do céu e escorria aos borbotões pelas calhas-telhados entrecruzadas e sobrepostas, parecia, agora, a solitária edificação uma fonte ornamental de sete andares. Já de uma tomada aérea, de cima, o topo extraordinariamente limpo da torre – um domo de bronze circular, abobadado, envolvido pelos telhados côncavos (como calhas, tal qual já dito) das câmaras retangulares adjacentes e enfileiradas em parte pelas bordas – lembrava muito a conhecida e bela flor que a construção abaixo trazia em seu nome: o Templo do Lótus; um edifício elevado e estreito, de múltiplos compartimentos, constituído basicamente por madeira sólida nas bases e paredes, amarras e acabamento em nobre metal, além de vidros transparentes nas janelas, que se sustentava sobre uma base de pedra ajardinada cercada por uma lagoa e acessada por quatro passarelas. Do alto, se podia observar ainda e bem claro que os canteiros ajardinados eram uma continuação nas formas e nas cores dos telhados curvos, completando, então, nas pontas os desenhos de folhas da flor de lótus.
O lusco cedia ao fusco, e de fato chovia forte, cortinando de embaço por onde quer que se olhasse a certa distância. A lagoa estalava e borbulhava copiosamente sob os pingos que se arrebentavam na superfície. Já o vento, implacável, silvava assustador e vergava as poucas árvores daquele descampado local e, sobretudo, o desprotegido templo de reflexão filosófica, torcendo e também estalando amedrontador cada coluna e viga sua, ameaçando separar cada uma de suas sete partes.
No sétimo e último andar (que, pelo forte balanço empurrado pelos ventos da tempestade, parecia um instável convés de uma embarcação em meio a um mar revoltoso), dentro da vazia e também circular sala central sob o teto de mesma forma geométrica, um homem de compleição um pouco atlética, tez avermelhadamente trigueira e queimão branco, e um jovem adulto, de olhos amendoados e também de queimão da mesma cor do do primeiro, sentavam-se ao chão de tacos próximo e defronte de um para o outro. Estavam separados por uma pequena mesa baixa de tampo oval de vidro, sobre a qual uma taça de cristal cheia d’água também continha uma vela dentro, afixada ao fundo pela base, que, com parte de seu corpo de cera acima da superfície, se encontrava acesa. Serenos, descalços, eles sentavam na exigente posição de lótus. Logo abaixo do tampo diáfano da mesinha de centro, um tapete redondo, de tamanho suficiente a ambos, com uma misteriosa estampa de uma mandala envolvendo os cinco sólidos perfeitos de Platão – o icosaedro, o hexaedro, o octaedro e o tetraedro em torno do dodecaedro –, servia para suavizar-lhes o longo contato das pernas com o relativamente duro piso.
Quase uma hora havia ali se passado, entre os dois. O mais velho chegara ao ápice de sua prática meditativa, concentrado na vela de combustão lenta. Era uma sensação indescritível de profunda quietude interior e unicidade total com o alvo da concentração que nem o tamborilar impetuoso da tempestade nos vidros das janelas o perturbava minimamente. Ignorava ainda os estrondos intermitentes dos trovões enfurecidos precedidos por relâmpagos que de súbito alumiavam aquela sala mal iluminada por uma lanterna artesanal que pendia do teto e balouçava ao sabor das rajadas de vento contra a flexível estrutura contemplativa.
Mais da metade da vela tinha se consumido. A chama estava a poucos segundos de tocar a água. Ao clarão instantâneo do relâmpago, o jovem, ante a iminência do esperado acontecimento, dava mostras, no sutil mas frenético tremor de suas pálpebras quase fechadas, de desconcentração em função da excitação incontrolável que ainda sentia naqueles momentos, ao contrário do imperturbável mais velho. Este, de olhos semiabertos na direção da vela, enxergava um padrão mental de ondas eletromagnéticas que, fruto de outro real, era externamente potencializado por pulsos eletrocerebrais em consonância com o alinhamento eventual dos spins e dos momentos orbitais dos elétrons das moléculas de ar à frente, o qual chegava ao objeto sobre a mesa, envolvendo-o num campo de força único e intensamente interativo.
No padrão mental observado pelo meditante mais velho, linhas desse campo eletromagnético em ressonância com o momento angular das partículas do ambiente e que convergiam para a chama se agitavam, quando a água principiou a borbulhar e a ferver. Incrivelmente, a chama, mesmo submersa, permanecia acesa, “respirando” através de um turbilhão de bolhas sucessivas. Tupã então lançou um longo olhar ao companheiro e, desconcentrando-se da vela, a água a apagou ao mergulhar com suavidade o pavio.
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