A Sinfonia do Cosmos

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Cap. I:

O lótus esculpido na rocha bruta e acinzentada servia de repouso aos meditantes. No gelado cume da elevada torre de granito profundamente escavada e esmeradamente entalhada, conhecido como o Terraço das Mentes, Gaio meditava sozinho justamente sobre uma dessas flores de pedra. Sentado na exigente posição de lótus, o jovem estendia o olhar fixo por cima do vasto mar de montanhas rochosas e esbranquiçadas sob brumas ralas, indo fixá-lo diretamente no disco solar rubro a pairar acima do horizonte acidentado e apagado pelo além.

Abaixo de Gaio, descia mais de 6 mil metros a monumental Trango Tower impiedosamente transformada no Mosteiro dos Esquecidos – a maior torre natural de granito do mundo atravessada por corredores estreitos, escavada por câmaras pequenas e entalhada de fora a fora por varandas, parapeitos e balaustradas, além de escadarias. Agasalhado, de toca acolchoada e calçando luvas, Gaio se protegia do rigoroso frio de altitude capaz de salpicar de neve por toda a parte do terraço. Chegara ao mosteiro algumas semanas após ter partido de Aerópolis, e já se habituara bem à extremamente rígida rotina do igualmente ermo lugar. No momento, meditava, mas não da forma comum aos seus companheiros de longo, longíssimo, retiro. Inteiramente concentrado no disco de fogo, através dele Gaio buscava mentalmente enxergar o planeta em toda a sua gigantesca completitude. Conectado com o ambiente, estendia seu sentido eletromagnético por toda a face e as entranhas mais inalcançáveis da Terra. Na realidade, Gaio ouvia uma melodia – a mais fundamental de todas, aquela ressoada pela matéria e pela energia. Para ser exato, Gaio procurava por alguma alteração indesejável no padrão global que minuciosamente mapeara de antemão dessa melodia. Se as cordas não lhe soassem familiar, algo poderia preocupá-lo bastante.

Gaio aferia a pulsação energética de toda a Aerópolis. Apesar da destruição causada pelo maciço ataque dos alienígenas em pelo menos um quarto de sua enorme extensão – notícia de que, aliás, só agora Gaio, chocado, soube –, a gigalópole, que passava por intenso processo de reconstrução, ainda preservava seu Grande Equilíbrio Social, Gaio checava. Mas, apreensivo, Gaio também notava que forças opostas a esse Equilíbrio se avultavam e, cada vez mais, o ameaçavam.

De um instante a outro, Gaio, desesperado, começou a focalizar o sentido eletromagnético em algumas pessoas especiais. Sua atenção recaiu primeiramente sobre a mãe, que, conferia, se achava bem, não obstante o luto sem fim. Gaio soube, assustado, ainda que a mãe, teimosa e temerária – ou talvez, mesmo, suicida igual ao filho –, não tinha saído para os abrigos subterrâneos durante os ataques extraterrestres. E deixando a mãe, de repente Gaio sentiu uma imensa vontade de procurar saber da amiga de quem infelizmente não tivera tempo de se despedir pessoalmente.

Por Marina, Gaio vasculhou insistentemente por toda a parte, contudo sua vontade de vê-la foi tão grande quanto sua frustração: a amiga não se encontrava em parte alguma da... Terra!; é o que parecia, ou, mesmo, lhe saltava aos olhos mentais, pois a precisão de sua eficiência, reconhecida por si próprio, principiou-lhe a ser motivo de crescente preocupação.

O Sol se pôs atrás do alto horizonte serrilhado de pedras e Gaio desconcentrou-se. O domo do céu se apresentava azul e limpo, mas, de relance, o vento começou a se fazer mais percebido, porque constante e ainda mais frio. De trás, do lado oposto ao ocaso, as sombras subiam progressivamente para se deitar à frente, no oeste, com força inexorável.

Inflexível aos anúncios hostis da proximidade do término do crepúsculo, no elevado alto daquele desprotegido terraço Gaio não parava de se perguntar por onde estaria Marina: o que, afinal, teria lhe acontecido?. Não sabia por que motivo, estava se sentido culpado por algo: possivelmente, era forçado a considerar, por alguma outra loucura feita pela amiga por ele e a qual não pudera evitar. Provavelmente, se estivesse certo embora não quisesse estar, a causa teria sido a sua partida repentina. Ou, talvez, o seu plano perfeito de se entregar de fato sem se entregar também de fato aos carrascos... Será que Marina, tão ainda imatura emocionalmente, não acreditara no engodo dele? É verdade que seu engodo era perfeito em toda a adequação requerida pelo adjetivo, mas... Maia poderia também não ter conseguido alertar Marina a tempo, conforme lhe pedira!

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