A Grande Brana
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Cap. VIII:
Na manhĂŁ seguinte, por volta de um sereno e mormacento meio-dia, no sĂ©timo andar do Templo do LĂłtus, Gaio outra vez se achava em pĂ© diante do vitral especial do lĂłtus negro numa das quatro portas duplas daquela sala circular. Mesmo assombrada, a figura vĂtrea da sagrada flor conseguia brilhar de terror. A despeito disso, seu espectador nĂŁo demonstrava o menor sinal de intimidação ou acovardamento em meio a trevas indevassĂĄveis igualmente penetrantes.
Subitamente, Chang Ji adentrou a sala pela porta da escada helicoidal rente Ă parede:
â Vai enfrentar o buraco mais uma vez, Gaio?! â disse surpreendido o professor de artes marciais.
â Encontrei a chave, mestre Ji! â disse Gaio sem desviar o fixo olhar do escuro vitral. â SĂł devo abrir o Universo certo. SĂł, nada mais.
A seguir, Gaio se adiantou obstinado atĂ© a referida porta dupla escura Ă frente e a atravessou, fechando-a novamente, pelo lado de dentro. No interior da cĂąmara, defrontou-se mais uma vez com a terrĂvel e caliginosa cova verticalmente aĂ©rea. NĂŁo a temeu nem por um instante sequer, embora evitasse olhar para o centro profundo do rombo dimensional.
Como da Ășltima vez, Gaio observava, a borda nevoadamente obumbrada da boca do buraco de minhoca continuava a emitir chispas que, apesar de suaves e lentas, eram capazes de iluminar razoavelmente os desvĂŁos laterais daquela cĂąmara especial.
Tendo de encarar a mortal armadilha do centro do negro portal, Gaio o fez de maneira preventiva ao se valer visualmente dos fractais. Desse modo, procurou e logo identificou certas linhas que conferiam contorno a grande parte dos elementos geomĂ©tricos do complexo padrĂŁo colorido, as quais convergiam para o interior da boca do buraco anelĂdeo.
Por meio do eletromagnetismo, Gaio seguiu mentalmente as linhas, mergulhando ininterrupto nas profundezas interminavelmente abissais do buraco de sombras. As coordenadas do infinito o levavam por uma superfĂcie sem limites e coberta de rugosidades como a casca de uma noz. Deslocava-se Ă velocidade da luz, pelos atalhos entre as pregas no tecido do Grande Cosmos.
Com a linha do tempo imaginĂĄrio, Gaio alinhavava a Grande Brana, costurando Universos escolhidos aleatoriamente dentre grupos limitados que reuniam somente os 3600 referentes a cada uma do total de combinaçÔes de posiçÔes diferentes e simultĂąneas dos trĂȘs principais ponteiros de um relĂłgio analĂłgico em um perĂodo de uma hora. Alinhando com a linha do tempo imaginĂĄrio a sucessĂŁo restringida de Universos-estados, Gaio efetuou quanticamente um laço por meio da linha do tempo real. O laço quĂąntico foi estabelecido entre ele e seu outro eu, o anti-, do outro lado do buraco de minhoca. Em consequĂȘncia, a ação entrelaçada de ambos abriu o portal dimensional escuro, fato mostrado por um movimento de dentro para fora dos complexos elementos geomĂ©tricos constituintes do fractal.
Aberto o buraco de minhoca, Gaio fez uma råpida pausa e, depois, ainda se utilizando dos fractais para se proteger das oscilaçÔes mortais da Conjetura da Proteção Cronológica, finalmente o atravessou.
Do outro lado da boca do buraco de minhoca, Gaio, rigorosamente diante de seu anti-eu, parecia ter encontrado um espelho altamente cristalino e perfeito. Em razĂŁo de uma interferĂȘncia Ăłtica entre eles, suas vestimentas, originalmente distintas, porquanto desentrelaçadas quanticamente, demonstraram tambĂ©m uma equivalĂȘncia visual, embora ilusĂłria. Os dois se achavam em um andar no interior de um gigantesco edifĂcio circular guarnecido de inĂșmeros e imensos magnetos tubulares nas paredes, todos conectados a um emaranhado florestal de cabos.
Os potentes magnetos convergiam para numerosas celas espalhadas pelos andares e onde aprisionavam incontĂĄveis portais dimensionais como o que Gaio acabara de cruzar. AtrĂĄs dele, de repente um alarme ensurdecedor reverberava por dentro daquela gigante estufa eletromagnĂ©tica de buracos de minhoca. Por conseguinte, todas as saĂdas do local se fechavam remotamente.
â O gato nĂŁo pode morrer... â disse Gaio a si mesmo, alĂ©m de seu anti-eu. Disparou correndo contra o tempo, por um acesso lateral e ainda aberto, logo adentrando um corredor.