A Mortal e o Imortal

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Cap. VI:

Do céu azul, o Sol raiava intenso, lançando luz e calor contra a ainda esguia torre de Trango, ceifada, na verdade, toda lateralmente. Em uma área de pátio a meio caminho do topo parcialmente destruído, os esquecidos e as esquecidas complementavam seus aquecimentos ao Sol com chás fumegantes e exercícios físicos. Em um canto repleto de vasos com plantas, havia uma comprida mesa de madeira diante da qual muitos dos sobreviventes se reuniam, liderados por alguns visivelmente idosos, de laranja-açafrão, a cor das vestimentas dos Savantis. Muitos dos sobreviventes se valiam do auxílio de muletas para andar. Por causa do terrível ataque sofrido, alguns tinham perdidos membros, deixando completamente de andar. Mas todos aparentemente muito determinados e imunes às limitações físicas, porque acostumados com privações, racionamentos e a dureza do frio e solidão extremos, tratavam uns aos outros com profusas gargalhadas, parecendo rirem gostosamente das próprias desgraças. Assim Gaio a distância constatava ao observá-los com admiração, ele sentado a sós a uma pedra improvisada como mesa.

Enquanto também bebericava na xícara um xá bem quente, Gaio estava imaginando se poderia ficar ali, e por quanto tempo. Não era para isso, ficar ali, que tinha voltado. Deixara Aerópolis para trás talvez em seu pior momento. Mas o que fazer por Aerópolis se não conseguia lidar com seus próprios problemas. Havia prometido a si mesmo que tentaria de tudo para impedir que a cidade se degenerasse. Mas isso já faz tempo, e as visões de mundo se atualizam, não? As pessoas devem provar seu valor justamente nesses momentos de grande sofrimento físico. Devem enfrentar todas as hostilidades ao seu redor e conservar-se íntegras, resistindo a todas deformações do ambiente. Por isso, não irei interferir. Mas darei um golpe de misericórdia caso não haja mais possibilidade de recuperação. Acabarei com tudo. Matarei Baleia!

Gaio se assustou um pouco com o radicalismo de suas próprias ideias. Mas, determinado sem saber direito por quê, nos dias que se seguiram procurou não pensar no assunto, para não acabar vacilante em sua decisão. Contudo, à medida que os esquecidos e esquecidas assimilavam o impacto dos trágicos ataques por eles sofridos, crescia rápida e abertamente no mosteiro o interesse em saber o que acontecera à Aerópolis em face daquilo tudo. E, naturalmente, todas as indagações recaíam sobre ele, Gaio, o único que havia da cidade chegado até ali desde então. No mosteiro sempre fora proibido alguém procurar saber o que se passava no mundo de fora. Mas, agora, no que restara do mosteiro, isso parecia não mais valer. Gaio até buscou, de início, evitar contatos com todos os seus colegas de retiro, muitas vezes desconversando e até mentindo sobre o que realmente tinha visto em Aerópolis. Sua falta de firmeza nas respostas e suas constantes esquivas, contudo, acabaram aumentando as suspeitas dos monásticos, que temiam cada vez mais por suas famílias e amigos. Para piorar, ninguém mais chegava de fora, da torre-metrópole. Gaio continuou insistindo em ignorar o que pensavam os seus próximos. Tinha procurado Maia, mas como ela não queria vê-lo, não se incomodou muito, pois, dessa forma, não precisava contá-la nada sobre o que quase todo mundo ali queria saber.

Passados mais alguns dias, a situação no mosteiro já beirava o incontrolável, pois os esquecidos e esquecidas começaram a planejar uma partida em massa para Aerópolis. Para piorar, os líderes, como os Savantis, não sabiam o que fazer.

– Como eles vão atravessar o deserto assim, ainda frágeis e completamente despreparados? – quis saber Gaio com Pingue quando com ele se deparou em um corredor.

– Gaio – Pingue vacilou por um instante, o olhar fixo para Gaio –, infelizmente a situação é ainda mais séria do que você imagina.

Gaio também ficou em suspenso com a gravidade do tom de Pingue. Tentou imaginar o que de tão ruim assim ele estava prestes a lhe dizer.

– Sem que todos soubessem, um grupo de jovens partiu vários dias atrás e, entre eles, estava Maia, parece que liderando-os.

Gaio ficou chocado, estático, sem palavras. Temeu pela vida da mulher que ainda amava. E o tempo, principalmente o que já havia corrido, virou o seu maior inimigo. Por isso, sem dizer mais nada mesmo, simplesmente correu a uma direção.

Quando logo alcançou a borda de um precipício, Gaio projetou-se para fora de Trango Tower. Lançou ondas magnetoelétricas contra as superfícies alcantiladas dos lados abaixo, penetrando até as profundezas das rochas a fim de gerar inúmeros polos de força repulsiva sobre os quais podia planar. A atração gravitacional, mesmo que atuasse na vertical, ao ser parcialmente anulada, era controlada de uma maneira que o impulsionasse sempre à frente, como numa rampa sem fim.


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