O Grande Atrator

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Parte 2: Cap. V:

A pedra diáfana, intensamente brilhante e do tamanho de uma laranja, deslizava cada uma de suas doze polidas faces pentagonais por todos os dedos limpos de gordura da mão aparentemente deslumbrada.

– Maldito! – exclamou colérico o homem da mão da pedra. Era Assur, instalado em sua costumeira e confortável poltrona atrás da mesa de escritório e com tampo curvilíneo de marfim. Uma exuberante mulher, pouco vestida, sentava-se lascivamente sobre uma de suas pernas e tinha agarrada a nua cintura pela outra de suas mãos. – Rachou todas as minhas pedras! Maldito!, maldito!, maldito!, maldito quatro vezes!

– Calma Ssú – disse a mulher com denguice, e afagou o pescoço de Assur com as mãos carregadas de joias.

– Calma, nada! Com esta, aqui, será diferente. Vai, agora vai! Pois ela é a única que não é feita de triângulos... – Assur de repente ria misteriosamente.

Meses foram se sucedendo, ao passo que Gaio escrevia persistentemente entre uma contemplação e outra do horizonte abismal que se via da abertura de sua solitária câmara de reflexão filosófica. Todos os dias, ajudava seus colegas enclausurados a tirar o gelo com água e rodo da parte externa da desmedida escada que dava acesso ao Templo dos Esquecidos. Mesmo sendo só a parte de fora, a extensão da escada ainda chegava a mais de 6 mil metros. Era trabalho duríssimo. Mesmo em grupo, levava 5 horas ininterruptas. A jornada se iniciava às cinco da manhã, logo depois do desjejum. Era um grande esforço físico que, depois de um banho e um longo descanso em um ofurô, revigorava o espírito, desacostumando-o ao acomodamento. Gaio demorou um pouco para começar a acompanhar o ritmo de seus colegas. Quando já podia fazê-lo, foi desafiado por eles a tentar descobrir quantos degraus tinha todo aquele absurdo sistema de escadas, contando degrau por degrau, sem fazer nenhuma marcação no chão ou na parede, apenas lutando para manter a dificílima coerência do raciocínio em meio à crescentemente extrema estafa física e mental de uma tarefa diária. Gaio aceitou o desafio com gosto. Mas, após poucas tentativas, desistiu, percebendo que sempre que passava de algumas centenas de degraus, perdia a certeza na contagem em algum momento. Para consolo de Gaio, ninguém ainda havia conseguido essa façanha.

E Gaio continuava a visitar a amada que, para seu profundo mas compreendido desgosto, nunca mais fora a mesma desde aquele dia em que a ela revelara o infeliz ocorrido entre Marina e ele. Quando a encontrava, sempre na câmara secreta, Maia sistematicamente adotava uma postura fria, distante e vaga. Só conversava formalmente. Gaio sofria entranhadamente com isso, principalmente quando tomava consciência de que a amada padecia igualmente com aquela situação. Contudo, preferia essa autoimolação revigorada todos os dias a permitir que ela partisse enquanto não se manifestasse quanto a isso.

Mas o drama entre ambos estava passando dos limites. Nenhum dos dois poderia aguentar por mais tempo aquela convivência silenciosamente torturante. Maia, aparentemente mais fraca, sentiu um dia que ou dava um basta ou sucumbia de vez àquilo.

– Gaio, aqui quase não tenho noção da passagem do tempo, mas sinto, já muito além do suportável, a opressão destes dias que passaram e que continuam a passar! Chega! Preciso partir de qualquer jeito! Quero rever a minha família, quero que ela conheça o meu filho! Tenho de fazer algo que me distraia! Trabalhar, voltar a ficar perto de minhas plantas, por exemplo, pois as reflexões que este lugar me obrigam estão me matando! Estou cheia de mim! Esquecer! Esquecer isso tudo é a minha única salvação!

Desconcertado, condoído e compreensivo ao extremo, Gaio não sabia se a expressão profundamente angustiada da amada se alagaria de lágrimas também desta vez. Claro, torcia para que não; ou sim? A segunda hipótese podia ser evidência de que ela ainda o amava, ao dar vazão a sentimentos dolorosos que não conseguia deixar de sufocar, como se desejasse tolerar o intolerável em sacrifício a ele. Pústulas da alma que, quando ardiam, remetiam a ele, de quem não queria se abdicar mesmo em meio a tanta dor. Egoísta ou não, pelo mesmo motivo Gaio não podia se furtar de notar que ele de alguma forma queria aquilo: ser a dor da amada que ela considerava pior caso fosse cessada. O que os dois temiam era na verdade o vácuo... de significados que tomaria suas almas se optassem por tentar se afastar um do outro. E sobreviver a isso requeria encarar o cinismo às vezes absoluto em todas as circunstâncias da vida: o recomeço que se constitui em necessariamente voltar a se iludir com a busca dos vitais significados, sempre com a experiência indelével da desilusão já conhecida.

Retornando ao presente, Gaio viu com mágoa culposa e amarga resignação que amada agora não havia chorado; resistira... aquele era o momento de se fazer algo, mais precisamente, fazer o que Maia desejava.

– Partirei imediatamente para Aerópolis – disse Gaio resoluto, olhando nos olhos da amada. – E prometo buscá-la dentro de uma semana.

– Não aceitarei mais demoras – disse Maia dura, e com a mesma frieza desviou a atenção para o filho, que engatinhava distraído pelo frio chão de granito daquele antro.

Gaio então entendeu que devia começar já o prometido, e, beijando o filho, saiu em silêncio.

...

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