Gozo e Desgosto
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Cap. IV:
Contra o espaço negro sem limites â sem chĂŁo, teto e paredes, em suma, sem fim â, a ingente massa de poeira começou a espiralar para dentro de um poço intensamente brilhante e sem fundo. A massa espiralava tĂŁo veloz que logo se separou em linhas definidas e estreitas como braços. E, de repente, um desses braços agarrou uma linda jovem loira de cabelos levemente cacheados e olhos azul-oceĂąnico, puxando-a com uma força invencĂvel na direção do destrutĂvel buraco sorvedor.
â Gaio!, me ajude, nĂŁo me deixe, eu o amo! â chamava a jovem. Debatia-se ferozmente contra a corrente de pĂł engolfante, na tentativa desesperada de vencer o poderoso movimento para a aniquilação.
â Marina! Aguente sĂł um pouco, jĂĄ estou indo!
Mergulhando na corrente de pĂł, Gaio seguiu acelerando tĂŁo cĂ©lere e indefinidamente que, em pouco tempo, atingiu a assombrosa velocidade da luz, 300 mil quilĂŽmetros por segundo; para tal extremo, foi consumindo toda a energia do Universo, mas ao passo que o braço galĂĄctico a levar Marina se estendia ao infinito. AtĂ© que, a despeito de ter mobilizado o Tudo, se convenceu um derrotado testemunhando completamente impotente a amada amiga sucumbir ao Nada: Marina foi impetuosamente tragada pelo irresistĂvel poço sem fundo, o qual, ao final da aniquilação, ainda emitiu um fortĂssimo fulgor vermelho como se terrivelmente tivesse arrotado o sangue da inocente vĂtima.
Em estado de choque, Gaio ficou a vagar sem rumo pelo vazio infinito do espaço sideral, igual ao nåufrago que boia ininterruptamente pelo oceano interminåvel. Mas a desgraça a paralisar-lhe, de relance, adquiriu um forte cheiro de fermentação, o qual penetrou-lhe as narinas e tomou-lhe o corpo, incendiando-lhe os nervos para arrancå-lo da letargia.
â Acorde, Gaio â disse Pingue ao afastar do nariz de Gaio o bico de uma de suas cabaças contendo aguardente-do-dragĂŁo. â Estava delirando, pois se encontra muito fraco. NĂŁo come hĂĄ dias!
Enquanto DĂșbio passava, a porta entreaberta da cĂąmara de Gaio lhe atraiu a atenção. Aproximou-se e, percebendo Pingue lĂĄ dentro, parou a fim de observar atento. Acomodou-se de tal forma rĂĄpido em seu posto que, Pingue reparando-lhe a presença, nĂŁo conseguiu se esconder a tempo de evitar a solicitação de um favor seu por aquele.
â Por favor, DĂșbio, vĂĄ atĂ© o laboratĂłrio dos monges farmacĂȘuticos e traga com urgĂȘncia uma solução reidratante ao nosso colega!
Parado, DĂșbio nĂŁo atendeu ao favor de imediato nĂŁo porque nĂŁo quisesse fazĂȘ-lo, mas sim por se enredar num raciocĂnio sobre sua natureza e suas implicaçÔes diante daquelas e tambĂ©m outras circunstĂąncias jĂĄ vividas e relacionadas com tais. Apesar disso, mesmo confuso nĂŁo demorou tanto a sair para atender ao mestre.
â Gaio â chamou Pingue preocupado â, vocĂȘ pode detectar o arsĂȘnico na solução, nĂŁo pode?
â Fique tranquilo, mestre, ele nĂŁo me farĂĄ nada demais se me envenenar â disse Gaio profundamente melancĂłlico, sorvendo imprudente com exagerados goles toda a aguardente-do-dragĂŁo lhe passada pelo mestre.
â Gaio! Vou atrĂĄs dele para conferir! E nĂŁo se exceda com isso, pode realmente lhe matar dessa forma! â Pingue avançou a mĂŁo a fim de agarrar a cabaça que Gaio empunhava e âmamavaâ. Este, mesmo adoecido pelo desequilĂbrio de sua homoestasia, ainda teve reflexos para sonegar a garrafa com suficiĂȘncia. Pingue, por outro lado, se antecipou Ă esquiva modificando mais ligeiro o curso do roliço braço no intuito de bater com um nĂł do dedo da mĂŁo deste atrĂĄs do cotovelo do teimoso discĂpulo. Acertou-lhe um tendĂŁo do braço, o qual vibrou, doĂdo, que nem uma corda de instrumento musical de dedilhar: com a sensação horrĂvel de choque elĂ©trico no braço, Gaio ficou com a mĂŁo deste imobilizada no ar por alguns instantes mais que suficientes para o mestre lhe arrebatar a cabaça desta.
â Espere, mestre Pingue â clamou Gaio com o semblante atormentado. â Preciso lhe dizer: infelizmente terei de desonrĂĄ-lo, o senhor, os meus outros mestres e companheiros!